O corpo, o livro e nosso cérebro: ler ou não ler nas férias? Eis a questão

Professor João ReynaldoPor João Reynaldo Pires Junior, professor de português, literatura e gramática

Depois de um longo período de avaliações em que nossos estudantes precisam aplicar o que aprenderam e ser avaliados nas mais diversas habilidades e disciplinas, chega o tão esperado período das férias. Há certa polêmica, no entanto, sobre como devemos manter ou não nosso cérebro aquecido nesse período, fazendo leituras ou simplesmente descansando por completo.

Para pensarmos sobre essa questão, é interessante olharmos para duas formas de compreender o mundo que têm impactado o modo como aprendemos: a neurociência e a psicanálise bioenergética.

A grosso modo, podemos dizer que os neurocientistas têm investigado, no último século, a maneira como o processo de estudo e aprendizagem pode afetar o funcionamento do nosso cérebro.

Algumas contribuições já comprovadas desses estudos incluem as descobertas de que precisamos estabelecer vínculo emocional com o que estamos aprendendo para aprendermos melhor e que, como afirma o Prof. Dr. Fernando Mazzili Louzada, do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Paraná, conhecer a realidade e construir conhecimento sólido sobre ela é como abrir uma trilha numa floresta.

Isso quer dizer que quanto mais atravessamos uma picada na mata, mais fácil fica passar por ela ao longo do tempo. Ou seja, quanto mais formas diferentes usamos para acessar uma informação, maiores as chances de nos apropriarmos dela como conhecimento.

Da mesma maneira, os caminhos que não utilizamos vão se fechando, gradualmente dificultando o acesso a certas regiões. Essa metáfora nos ajuda a compreender como nosso sistema neuronal lida com o que aprendemos. E essa aprendizagem obviamente está relacionada à qualidade das interações que são oferecidas em aula em ambiente escolar, mas não somente isso.

Há outras formas de nos aventurarmos por esses caminhos, mesmo quando estamos sozinhos. Quando estou, por exemplo, em contato com um livro, filme, ou mesmo diante de um jogo de videogame que tenha uma estrutura narrativa ou mecânica complexa, podemos realizar as mesmas ligações e conexões sinápticas para aprender coisas novas.

E a neurociência também nos diz que, quanto mais fizermos isso juntos, em comunidade, e conversamos a respeito do que vimos, mais sofisticadas ficarão essas ligações.

Um contraponto a esse olhar sobre como adquirimos informações, porém, é o pensamento bioenergético. Já é muito popular dentro do mundo do trabalho na contemporaneidade esse discurso sobre a maneira como nossas crenças e valores podem afetar a qualidade do que produzimos, o que a professora de psicologia de Lewis e Virginia Eaton, na Universidade de Stanford, Carol Dweck, chamou de mindset.

No entanto, a bioenergética, uma técnica desenvolvida pelo psicanalista estadunidense Alexander Lowen, se propõe como uma dissidência desse olhar ao considerar o corpo e nossa bioeletricidade na maneira como encaramos as situações que vivemos, relembrando a importância de nossa estrutura corporal nesse fenômeno.

Isso quer dizer que estimular apenas a mente não basta e, para aprendermos melhor, necessariamente precisamos mudar esquemas e concepções mentais. Mas estas também se manifestam pelas emoções e experiências que tivemos com nosso corpo, o que temos chamado de bodyset. Não há como lidar com um sem alterar o outro, como se os dois fossem duas faces de uma mesma moeda.

E de que maneira esse confronto entre esses dois olhares pode direcionar o modo como pensamos sobre ler nas férias?

Se seguirmos as abordagens mais tradicionais de leitura, centradas nos materiais impressos e livros de papel, tomando essa visão essencialista de que “aluno bom é aquele que lê livros grandes durante as férias”, podemos estar reproduzindo estereótipos ultrapassados do que é ler e de como se realiza a experiência de leitura que não são mais condizentes com o modo como as atuais gerações de jovens leem.

Não se trata de descartar completamente os livros, nem de glamourizá-los como alta cultura, mas sim de incluir no debate sobre o que pode ser lido em outros formatos e novas experiências coletivamente.

Nesse sentido, descansar e dormir um pouco mais pode ser sim um meio muito produtivo para o restabelecimento do corpo durante o período de férias, se considerarmos que o funcionamento saudável da mente está associado a ele.

Porém a provocação que fica é: por que não incluir experiências e vivências de leitura de livros e de outros formatos que também possam nos estimular a saber mais sobre realidades desconhecidas e nos conectarmos a elas? Por essa perspectiva, visitar museus com a mediação de educadores ou mesmo viajar para lugares próximos, mas desconhecidos, podem ser experiências ricas de leitura.

Até mesmo jogar um game mais complexo ou assistir a uma série num canal de streaming e depois conversar sobre o assunto podem ser modos significativos de estimular nossa atividade cerebral e aproveitar as férias como um momento importante de pausa sem, no entanto, deixar se apagar uma certa curiosidade e um desejo de saber sobre o mundo que podem ser muito proveitosos para o modo como aprendemos.

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